SHAKTI-SHIVA e a Cosmogênese – Os mistérios da origem do humano e do universo

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Cosmogênese – uma viagem pelos mistérios da origem do universo e do homem

Fonte: http://www.teosofia-liberdade.org.br/

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é apresentar despretensiosamente alguns conceitos teosóficos sobre a origem e desenvolvimento do universo bem como a natureza espiritual da humanidade. Destina-se aos inicantes no estudo da Filosofia Esotérica, bem como a todos que não estão satisfeitos com as respostas dadas pelas religiões e a ciência, aos mistérios da vida. Este assunto foi apresentado primeiramente por Helena Blavatsky no final do século 19 e detalhado no seu livro “A Doutrina Secreta” (1888). Posteriormente na primeira metade do século 20, autores como Annie Besant, C.W. Leadbeater e Jinarajadasa popularizaram estes ensinamentos expondo-os de maneira didática como por exemplo no livro “Fundamentos de Teosofia” (1921) de Jinarajadasa. Dando continuidade ao trabalho dos grandes escritores teosóficos, I. K. Taimni publicou o livro “O Homem, Deus e o Universo” (1969) onde analisa com profundidade filosófica e uma linguagem atual os conceitos teosóficos relativos a cosmôgenese, enriquecendo a literatura sobre o tema. Por isso, a base deste trabalho será livro do Taimni, mas utilizando em paralelo os demais autores.

Os assuntos de metafísica abordados neste trabalho estão além da compreensão intelectual, mas nem por isso devem ser negligenciados. Os livros de ocultismo apresentam verdades comprovadas por Sábios que transcenderam as limitações intelecutais e desenvolveram capacidades especiais que estão latentes em todas as pessoas, que lhes permitiram vivenciar diretamente estas verdades. Estes Santos Seres, relataram suas experiências a seus discípulos que as escreveram originando os textos sagrados de todas as Tradições Religiosas e Filosóficas.

Porém, os textos são pálidos reflexos das Verdades transmitidas, uma vez que ao traduzir uma experiência de caráter transcendente ao mundo das idéias a linguagem é insuficiente. Imagine um caso hipotético de tentar descrever a sensação de mergulhar o corpo em um rio para uma pessoa que nunca teve contato com a água, ou explicar o gosto do guaraná para quem nunca provou. Estes são dois exemplos singelos para dar uma idéia das limitações do ocultismo teórico. Porém até que o estudante seja capaz de adquirir as verdades por experiencia própria através do desenvolvimento espiritual, a teoria, embora limita é tão útil como um mapa para indicar o caminho ao viajante em uma terra estrangeira. Por isso, graças ao esforço destes Sábios e seus discípulos que transcreveram sua mensagem se tem acesso ao conhecimento denominado de forma genérica de Filosofia Esotérica.

O UNIVERSO NÃO-MANIFESTO – POTENCIAL

Nos sistemas esotéricos o universo está dividido em duas etapas: sem forma (arupa) e com forma (rupa) ou em não-manifestado e manifestado. O primeiro refere-se ao estado passivo, neutro e integrado, onde todas as formas e poderes existem em estado latente. A segunda etapa é quando o universo passa para o estado ativo, polar, diferenciado, dando início a atividade construtiva que resulta na criação do universo onde vivemos. A Filosofia Esotérica também afirma que estes dois estados de repouso e atividade alternam-se eternamente. Em certo momento o universo sai do estado latente e passa a atividade e depois de atingir o ápice de sua evolução recolhe toda a criação para seu interior, fazendo isso sucessivamente.

Nesta parte do trabalho será abordado o estado de repouso antes do universo se manifestar, que para efeito de estudo foi divididos em três aspectos: Absoluto, Diferenciação Primária e Diferenciação Secundária.

Absoluto ou Realidade Suprema

O Absoluto é sinônimo de Realidade Suprema e Parabrahman na filosofia hindu, Ele é a causa de todos os universos existentes. Este princípio impessoal contém tanto o estado ativo e passivo sendo Ele prório é neutro. Tudo que existe no universo é uma expressão deste princípio. A própria palavra universo dá uma indicação de sua natureza, porque UNI significa único e VERSO significa diverso, ou seja, contém ao mesmo tempo um e muitos. Mas como pode o Absoluto sem forma conter todas as formas?

FIGURA 1 – A DIFERENCIAÇÃO DA LUZ BRANCA

Outro aspecto do absoluto é o rítmo que leva o universo a alternar estado de atividade (manvantara) e repouso (pralaya). Considera-se que o estado neutro deve surgir pelo equilíbrio entre dois opostos, o manifesto e o não-manifesto que coexistem no Absoluto. Estas forças opostas em estado potencial dão orígem ao rítmo cósmico que é a própria natureza da Realidade Suprema. Sendo a fonte de todos os rítmos conhecidos no universo, como o movimento dos átomos e dos planetas, a vida e a morte, o sono e a vigília.

Resumindo, Absoluto é a realidade sem atributos, impessoal, infinita que antecede todo o manifestado, “a Causa sem Causa do Universo, Raiz sem Raiz de tudo que é foi e será”. O Absoluto que é neutro converte-se periodicamente em positivo-negativo, desdobrando-se no universo manifestado. Tudo que existe no mundo objetivo e subjetivo é uma expressão desta Realidade.

A Diferenciação Primária – Shiva-Shakti

A primeira diferenciação do Absoluto é em dois opostos polares interdependentes chamados de Shiva-Shakti ou Pai-Mãe. São os princípios masculino-feminino que se manifestam em todos os planos do Cosmos, também são chamados de Raiz do Espírito ou Consciência e Raiz da Substância ou Matéria, cujo resultado desta relação é o próprio universo.

Shiva (positivo) é a vontade que impulsiona o universo manifesto até sua finalidade. Shakti (negativo) fornece os meios para atingir o objetivo. Assim, a Consciência precisa do Poder para concretizar seu objetivo, bem como o Poder precisa da Consciência para dirigí-lo. Estes opostos são a fonte da energia que coloca o universo em movimento. Lembrando que estes dois aspectos na diferenciação primária ainda estão em estado latente e só vão realmente atuar quando o Absoluto criar um novo universo.

A Diferenciação Secudária – Ideação Cósmica

A ideação cósmica é o Pensamento do Absoluto é a Raiz da Mente e fonte dos fenômenos mentais nos planos manifestados. Esta Ideação é consequência da primeira diferenciação, ainda em estado potencial, Shiva a Raiz da Consciência projeta um sistema manifesto para fora de Si, estabelecendo desta forma a relação entre o sujeito (Shiva) e objeto (Sistema). Em outras palavras, a Ideação Cósmica é uma projeção do Absoluto em seu aspecto Shiva de algo que está em seu interior. Veja este exemplo, um artista projeta um quadro em sua mente e depois desenha-o na tela, a projeção mental do quadro é o início do relacionamento sujeito-objeto, onde a mente é o sujeito e a projeção do quadro é o objeto. Enquanto está na consciência do pensador o quadro existe apenas em estado potencial. Já, no relacionamento ativo, o artista transfere o quadro da sua mente para o exterior.

A relação entre as diferenciações primária e secundária no reino do Absoluto é a base do universo manifestado, é a origem do símbolo da cruz como ilustrado na figura 2.

FIGURA 2 – A CRUZ, SÍMBOLO DO UNIVERSO NÃO-MANIFESTO

Em suma, do princípio Shiva-Shakti surge a Ideação Cósmica o atributo Mental do Absoluto que é uma projeção do universo a ser criado, a fonte dos fenômenos mentais nos planos manifestados, o inicio do relacioname970b6d90519c1e0c120884585fdc4caanto sujeito-objeto. Neste conceito de Absoluto, Shiva-Shakti estão ligados ao poder e força sendo a Raiz da Matéria ou Mulaprakriti, enquanto a ideação é o princípio que dá orígem a Consciência ou Espírito. Este aspecto do Absoluto chamado de Pensamento Divino têm sua sede no Logos Cósmico.

O UNIVERSO MANIFESTADO – ATIVO

Até o momento foi tratado do Absoluto e seus aspectos potenciais antes de dar origem ao universo. Nesta parte será abordado os processos que ocorrem quando o Absoluto sai do estado de pralaya e inicia o processo de criação. Para recordar, o Absoluto sem atributos, contém em si todos os atributos, o rítmo é sua própria natureza. Este rítmo que é a origem dos estados de atividade e repouso, existe por meio do equilíbrio entre dois opostos polares chamados de Shiva-Shakti. Do aspecto Shiva que é a Raiz da Consciência, surge a Ideação Cósmica que é o início do relacionamento sujetio-objeto, o próprio Pensamento Divino que no estado ativo vai dar origem ao universo. Assim, o Absoluto contém em estado potencial três emanações Shiva (consciência), Shakti (poder) e Ideação Cósmica (pensamento) que são as bases para criação e manutenção do universo manifestado.

O Logos Cósmico

O Logos Cósmico é a sede da Ideação Cósmica e faz parte tanto do Absoluto não-manifesto como do manifesto. No não-manifesto está em estado latente, como um pensamento na mente do Criador, é a fonte dos universos manifestados. No manifesto, o pensamento começa a ser concretizado saindo do reino da consciência para o exterior, o quadro na mente do artista começa a ser pintado na tela. No plano da criação o Logos Cósmico é o princípio supremo que preside o cosmos, Sua Consciência impregna e controla todo o universo visível e invisível, é a Divindade por trás de todo os sistemas solares.

O Logos Cósmico é o Arquiteto que projeta o universo com todas as suas galáxias e sistemas solares, entretanto, tudo que existe foi concebido em e são expressões de Sua Mente. Entretanto, para Sua obra, o universo, ser concretizado Ele utiliza os Logoi Solares.

Os Logoi Solares

Os Logoi Solares são as expressões do Logos Cósmico manifestado no universo, assim como o verbo ou palavra é a expressão de um pensamento. O Logos Cósmico provê a base para os Logoi Solares executarem o trabalho de criar o sistema solar. Tudo que existe no sistema solar é uma emanação do Logos Solar que tem seu corpo físico no Sol que é fonte de toda a vida na Terra e ao redor do qual orbitam os planetas. Assim, o objetivo dos Logoi Solares é executar o projeto do Universo criado na mente do Logos Cósmico, onde cada um deles é responsável em criar e prover um sistema solar, extraíndo as forças necessárias do Logos Cósmico, estando diretamente associados a Sua atividade.

Os Logoi Solares são de natureza tríplice. Esta triplicidade deriva daquela diferenciação entre sujeito-objeto originada no plano não-manifestado apresentada na figura 2, onde Eu (sujeito ou Sat) projeta o Não-Eu (objeto ou Cit) sendo a percepção do objeto (Ananda) a ligação entre ambos e a origem do terceiro aspecto. Portanto, Sat-Cit-Ananda que surgem na Ideação Cósmica é a origem dos três aspectos do Logos Solar manifesto.

Deste modo, o Logos de um sistema solar inicia seu trabalho projetando um mundo na Mente Divina que se torna o aspecto forma e corresponde a Brahman ou terceiro Logos na nomenclatura teosófica. Este mundo projetado é animado pelo aspecto Vishnu ou segundo Logos que lhe confere o aspecto Vida. Por último, o primeiro Logos que é representado por Shiva e representa a Consciência, inicia seu trabalho quando é formado o corpo causal do ser humano, ou seja quando torna-se um ser individualizado e completo, fazendo a ligação da Mônada com o corpo. Em outras palavras, o Logos Solar inicia sua atividade pelo terceiro Logos criando os planos e dando origem a matéria. Depois, através do segundo Logos, a matéria é animada, ganha vida e vai sendo modelada para atingir o projeto do Logos Cósmico. Por fim, entra o trabalho do primeiro Logos no momento apropriado emana a Mônada que é o princípio espiritual humano.

Em suma, o Logos Solar através de suas três emanações constrói todo o universo manifestado, seguindo o Plano estabelecido pelo Logos Cósmico.

As mônadas

A mônada (do grego monas, unidade) é a centelha divina ou Jiva, a parte imortal do homem que inicia sua evolução nos reinos inferiores passando pelo elemental, mineral, vegetal, animal e humano, depois continua evoluindo até se tornar um Logos Solar. Embora una em essência penetra em todos os planos e regiões, contém em si o Germe ou poderes latentes dos atributos divinos que vão se manifestando em virtude das experiências adquiridas pelo contato com o universo manifestado. A mônada da mesma forma que o universo em manifestação passa pelos diversos planos até chegar ao físico.

O relacionamento entre a Mônada e o Logos poder ser ilustrado pela analogia entre uma árvore e suas sementes. Tanto na semente como na mônada existe a faculdade de crescer, amadurecer e tornar-se semelhante a árvore, gerando depois novas sementes. Outra analogia é do óvulo fecundado que contém o potencial de gerar uma nova vida à semelhança de seus pais, levando consigo os atributos genéticos que darão suas características.

Mas porque as Mônadas precisam se manifestar em um corpo passando por todas as vicissitudes humanas? Talvez a finalidade da manifestação seja produzir as mônadas que virão a se tornar novos Logos dando continuidade ao trabalho da Realidade Suprema. Cada mônada individual contribui para evoluir o universo enriquecendo-o com suas experiências. Se permanecesse no estado integrado do Absoluto a mônada não poderia vivenciar as experiências do mundo diferenciado necessárias para sua evolução misteriosa que foge da compreensão intelectual. A personalidade humana é um pálido reflexo da mônada que na maioria dos casos no estágio atual de evolução volta-se contra ela, o ser humano se esquece de sua origem divina.

CONCLUSÃO

Em suma, estes ensinamentos apresentam uma expressão das mais profundas verdades filosóficas a respeito da origem do universo, do homem e da natureza da Divindade. Tudo que existe é uma expressão desta Realidade Suprema que cria os universos periodicamente. Em estado potencial, contém os poderes que darão origem ao universo manifestado, chamados de Shiva-Shakti a Raiz da Matéria e Ideação Cósmica, a Raiz da Cosnciência. O Logos Cósmico é onde os universos são planejados e depois construídos pela ação dos Logoi Solares, onde o plano físico é a expressão mais material desta Realidade. As Mônadas, a fonte da individualidade humana, são originadas do Absoluto e seu destino é se tornar um Logos dando sequencia ao Seu trabalho.

Enfim, o objetivo deste trabalho foi apresentar uma síntese das mais elevadas verdades para as pessoas refletirem. O simples fato de estudar estes assuntos provoca uma lenta e silenciosa transformação interior, diz um provérbio hindu “você é aquilo que pensa, pensai no eterno”. Contudo, estes ensinamentos apresentam um vislumbre do plano divino, mostrando a grandiosa obra da criação e qual a nossa participação neste plano, uma vez que somos Mônadas temos uma orígem divina, sendo o nosso destino tão elevado que sequer concebemos. Por isso é nosso dever nos tornar trabalhadores engajados em contribuir para executar o plano de Deus que é a evolução.

BIBLIOGRAFIA

TAIMNI, I. K. O Homem, Deus e o Universo. São Paulo: Pensamento, 1969. 301p.